Numa tentativa de retomar as atividades deste bloguinho que por ficou “fechado para balanço” por um bom tempo – mais de seis meses, faço uma confissão neste primeiro post de 2010: sou filha de escola pública.
Cursei as séries primárias em escolinhas de bairro particulares, fui para um colégio cenecista, mas no final do séc. XX, com os reflexos da crise que assolava à época, minha família sentiu o arrocho que assolava a classe média brasileira, de modo que minha irmã e eu fomos transferidas para o Centro de Ensino Municipal Rui Palmeira.
Considerado um dos melhores da região pela infra-estrutura que então fornecia, recordo-me que conseguir a matrícula foi difícil: meus pais tiveram que apelar para os conhecidos a fim de garantir-nos uma vaga no colégio. Recordo-me também do choque que foi o primeiro dia de aula, vez que passei de um arborizado e grande colégio cenecista para um que mais lembrava uma prisão pela quantidade de pichações que existiam nas paredes e também pelas grades nas janelas, de modo que a razão de ser destas somente anos depois foi que vim a entender.
Os professores eram em sua maioria cinquentões ou idosos, na forma como hoje dispõe a Lei n.º 10.741/2003. Alguns com aquele “ranço” de servidor público, sabe? Como quem tava por ali esperando a aposentadoria... Mas as aulas eram divertidíssimas! Todos, absolutamente, tinham uma vasta experiência de vida, tratavam-nos como filhos, defendiam seus alunos e davam broncas neles como tal. Tive, naquela quinta série, meu primeiro contato com o francês – até hoje sei cantorolar o Hino da França! (risos) –, recebi atendimento dental, cantei no coral de crianças... Foi um barato!
No segundo ano, desta feita já na sexta série, fui estudar com minha irmã no período da tarde, com os garotos maiores, e finalmente conheci o âmago da escola pública: gente muito boa querendo trilhar caminhos diferentes da sua realidade por vezes miserável; outros adentrando em caminhos, ainda criança, que não valem a pena citar...
Para encurtar a história, como diria minha tia, cursei os quatro anos do ensino fundamental naquele centro de ensino público onde a diversidade imperava. De crianças com tênis Nike àqueles que andavam de chinelo por falta de grana; de gente que lanchava na cantina àqueles que meredavam no refeitório a única refeição do dia: suco de caju Pindorama com Bolacha Maria. Neste meio tempo, aqueles professores que, como dito acima, estavam apenas aguardando sua aposentadoria, cobravam, exigiam, cada vez menos de seus alunos.
O resultado disso não foi outro: baixo nível de aprendizagem. Lembro-me de colegas que na oitava série ainda soletravam as palavras quando a Professora de História os pediam para lerem textos do livro que nos eram entregues no início do ano. Na mesma oitava série, grande foi o número de alunos que, assim como eu, ficaram na lista de excedentes do exame de admissão do Centro de Educação Federal Tecnológica – o CEFET que virou IFAL.
No ensino médio, mudei: ao morar em outra cidade, sofri ao ter que me adaptar ao ensino de escola particular. Estudava por dia o dobro de horas que os colegas estudavam para alcançá-los nas notas. Nesta fase surgiu para mim sonho da universidade.
Com as dúvidas sobre que cursar, os EUA invadiram o Iraque e a UERJ foi a primeira universidade que instituiu o sistema de cotas para negros. Isso foi, inclusive, tema de redação da professora que lecionava a disciplina de mesmo nome a escola onde estudava, o fato porém é que desde o primeiro momento, no auge dos meus quinze anos, fui contra.
Carregada de convicções após a leitura de um texto a esse respeito na Revista Veja, gravei no HD da memória um trecho em que se dizia na reportagem que tiro poderia sair pela culatra e uma nova forma de preconceito nasceria: já pensou se as pessoas nas ruas passassem a serem apontadas como “médico de cotas” ou “advogados de cotas” ou “engenheiros de cotas”?
A mesma reportagem mostrava, diante do critério então utilizado por aquela universidade, que uma estudante judia, branca, de olhos azul-cor-de-piscina, se auto-declarou negra para burlar o sistema e ingressar nas vagas então destinadas a negros – nem precisa dizer que essa discussão foi parar no Judiciário.
Passei, pois, a pesquisar sobre o tema, a ver como a sociedade estava se comportando, as adaptações que foram feitas naquela época e a implantação dos sistemas de cotas – sobretudo como ele foi feito na UFAL – e vi alguns queridos amigos que haviam, diferente de mim, concluído seus estudos em escola pública, serem, em menor escala, vítimas de preconceito do jeito mostrado anos antes naquelas páginas da Revista Veja, denunciando-o inclusive em jornais de grande circulação no estado. Continuei a ser contra as cotas, mas não só aquelas voltadas aos negros e sim contra toda e qualquer forma a que ela venha a ser instituída.
Para alguns pode soar estranho ver uma negra, estudante de escola pública, falar isso, mas vejo essa política como forma de nivelamento por baixo, como diria um bom amigo da faculdade. Ora, dizer que esta é uma forma de se fazer justiça social com os menos favorecidos, que seria uma forma de implementar o que preceitua o art. 3º, III, da CRFB/1988, bem como os demais direitos fundamentais distribuídos no corpo do texto constitucional, constitui em uma falácia sem precedentes.
Como ex-aluna de escola pública, admito que nesta o que falta é qualidade de ensino, é gente com vontade e perfil para ensinar e Estado forte para investir em educação. Vi em matéria jornalística recente que o município de Arapiraca adquiriu um telescópio móvel que deverá ser levado as escolas do perímetro urbano e rural da cidade, onde as crianças poderão estudar as estrelas; no Centro de Pesquisa Pura e Aplicada – CEPA, o Observatório Astronômico Genival Leite Lima oferecerá cursos para as crianças do 6º ao 9º ano da rede pública de ensino com a finalidade de lhes preparar para a XIII Olimpíada Brasileira de Astronomia (OBA), que acontecerá no próximo dia 14 de maio.
Além disso, ouso dizer também que algo aconteceu no meio do caminho. Numa rápida pesquisa em meio virtual, averigua-se que grandes personagens do estado de Alagoas são filhos de escolas públicas, e dentre eles destaco Graciliano Ramos, Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, Guedes de Miranda, Francisco Cavalcanti Pontes de Miranda, Jayme de Altavila, Jorge de Lima, Lêdo Ivo, entre outros.
A diferença, hoje, do aluno de escola particular para o de escola pública é quantidade de horas por eles estudadas e o estímulo que cada um recebe para fazê-lo: este, ao sair da escola, vai jogar ximbra, soltar raia, jogar pião ou ovo em ônibus ou então qualquer outra coisa que não estudar. Já o aluno da escola particular, até pela condição que a família dispõe, tem uma série de atividades a cumprir pelo dia, indo dos esportes praticados na própria escola às aulas de língua estrangeira em cursos específicos, aulas de matérias isoladas. Como, então, colocar para competir em pé de igualdade aqueles que são naturalmente diferentes?
Ora, certamente que dando condições iguais! Reservar vagas é dizer para o aluno – Olha, daqui só selecionarei um número X; os demais, que vão para o mercado de trabalho viver de sub-empregos ou peçam ajuda ao governo para custear uma universidade particular... (cenas para os próximos capítulos).
Alguns que lerem podem concluir que este é um texto cheio de achismos para quem se propõe a ter um blog jurídico-acadêmico, mas são destas premissas, destes “achismos” que parto para a discussão que ocorreu no Supremo Tribunal Federal, mas que deixarei para a semana que vem. ;-)














